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sexta-feira, 15 de junho de 2007

Ateus saindo do armário?

Pela primeira vez na História, um político americano saiu do armário e declarou: eu sou ateu. Foi há dois meses que o deputado Peter Stark, da Califórnia, ganhou as páginas dos jornais ao dizer que não acredita em um “ser supremo” e que vai trabalhar contra a crescente influência da religião na vida americana. A reportagem é de Patrícia Campos Mello e publicada no jornal O Estado de S. Paulo, 10-06-2007.

Vários congressistas são abertamente gays e muitos já admitiram uso de drogas nos Estados Unidos. No ano passado, um muçulmano praticante foi eleito deputado, e assumiu o posto jurando sobre o Alcorão. Mas o ateísmo continuava a ser um tabu intransponível na sociedade americana. Até agora.

A revelação de Stark e o apoio entusiasmado que recebeu de vários eleitores são um sinal da força dos chamados neo-ateus, um grupo de ateístas militantes que estão defendendo o direito de não acreditar em Deus. Mas alguns dos neo-ateus chegam a ser tão radicais quanto seus nêmesis, os fundamentalistas cristãos e muçulmanos. Eles não se limitam a defender sua falta de fé. Eles são evangelistas, pregam a palavra da não-religião, tentam converter os fiéis ao racionalismo e pedem o fim do misticismo.

Nos últimos meses, esse ateísmo militante se transformou em um fenômeno editorial. Cinco livros anti-religião freqüentaram a lista dos mais vendidos do jornal The New York Times. São eles God Delusion, de Richard Dawkins, Breaking the Spell, Daniel Dennett, The End of Faith e Letter to a Christian Nation, de Sam Harris, e recentemente God is not great: How Religion Poisons Everything, do polemista Christopher Hitchens.

Em seus livros, os evangelistas do ateísmo pegam pesado. Hitchens, famoso por chamar a madre Teresa de Calcutá de “fanática” e “uma fraude”, argumenta que a religião é o combustível da maioria dos atuais conflitos sangrentos, como sunitas contra xiitas no Iraque, hindus contra muçulmanos em Mumbai, protestantes contra católicos em Ulster.

Já Dennett ataca o cristianismo, por ser uma religião “insana o bastante”, a ponto de levar as pessoas a esperarem ansiosamente pelo fim do mundo e pela volta do messias, segundo ele.

Já Dawkins afirma que “não existe opção entre o Talebã do Afeganistão e seu equivalente cristão na América”. E que “o fanatismo religioso está se espalhando desenfreadamente na América de hoje.” Para ele, Deus não passa de um “psicótico delinqüente”.

Harris diz, simplesmente, que é necessário acabar com a religião, antes que ela acabe com a civilização.

Esse extremismo gera controvérsia até dentro das fileiras do ateísmo. Os chamados ateus soft, encabeçados por Greg Epstein, o capelão humanista da Universidade Harvard, acham que os neo-ateus estão se tornando agressivos demais e usando a mesma arma que os fundamentalistas religiosos, ou seja, a intolerância. “A meta do humanismo não é simplesmente eliminar a religião”, diz Epstein. “Trata-se de uma filosofia bem mais ampla.” O humanismo rejeita o sobrenatural, mas prega princípios como a dignidade humana, igualdade e justiça social.

Lori Lipman Brown, diretora da Coalizão Secularista da América, acha que os neo-ateus estão fazendo um ótimo trabalho com seu contra-ataque. “Em alguns lugares dos Estados Unidos, uma pessoa que diz abertamente não acreditar em Deus ainda pode perder o emprego, ter seus filhos ridicularizados na escola e até ser espancado', diz. “O fato de muitos livros sobre o assunto estarem fazendo sucesso e existir, desde 2005, um lobby pró-ateus no Congresso, faz com que até cristãos praticantes reconheçam que ateus podem ser americanos patróticos e éticos, há mais respeito por essa minoria.'

Para Daniel Dennett, autor do livro Breaking the Spell e diretor do centro de estudos cognitivos da universidade Tufts, todo esse ímpeto ateísta foi um “backlash” contra os vários anos de fundamentalismo cristão do governo Bush. Durante esse período, várias organizações da Direita Cristã ganharam milhões de dólares em recursos, muitas restrições às pesquisas usando células-tronco foram aprovadas, o governo passou a pregar a abstinência como método anticoncepcional, e o criacionismo - corrente que nega a teoria da evolutiva de Darwin - ganhou força. Outros apontam também para o 11 de setembro como fonte dessa reação violenta contra o fanatismo religioso.

“Vários secularistas chegaram à conclusão, de forma independente, que o tradicional respeito dado à religisão estava sendo abusado por pessoas tentando impor suas opiniões no país, e que já era hora de corrigir isso', diz Dennett. Ele espera que agora outros integrantes do Congresso tenham coragem de falar de forma aberta sobre seu ateísmo. Dennett saiu do armário em um artigo do The New York Times em 2003, ao declarar: “Nós, os brights, não acreditamos em fantasmas , duendes, coelhinhos da Páscoa - ou Deus.”

“Brights”, no caso, é a forma como alguns neo-ateus se auto-intitulam. Da mesma maneira que os homossexuais passaram a usar a palavra gay (alegre), os humanistas, secularistas e agnósticos estão usando a palavra bright (brilhante, inteligente), que teria uma carga negativa menor do que o vocábulo “ateu”.

Segundo Paul Kurtz, professor emérito de filosofia da State University of New York e fundador do Conselho para Humanismo Secular, o número de pessoas “não-religiosas” não pára de crescer: eram 8,1% da população em 1990 e hoje são 14%, ou seja, mais de 30 milhões de americanos.

Os neo-ateus comemoram o crescimento do número de seus discípulos. Eles vislumbram o fim da discriminação contra ateus. Como diz o autor Dawkins em um artigo: “É como acontece com os gays: quanto mais brights saírem do armário, mais fácil será para outros brights assumirem.”

Instituto Humanas Unisinos