quinta-feira, 3 de maio de 2007

O Ateísmo militante de Michel Onfray

Para o polêmico pensador francês, a crença na inexistência de Deus é a salvação para o homem
viver mentalmente são, com liberdade e senso crítico.

Podemos dizer do ateísmo propriamente filosófico muitas coisas, menos que todo ateu é à-toa. Podemos dizer, por exemplo, que o ateísmo é uma elaboração teórica, um conceito, uma tese metafísica, uma hipótese cosmológica, uma conjectura ontológica ou simplesmente uma doutrina; é possível afirmar também, de modo geral, que o ateísmo é uma corrente de pensamento, um dogma ou até mesmo uma crença; mas de forma alguma o ateísmo consiste numa religião ou – o que é pior – em outra espécie de “teologia”.

Há duas maneiras de ser ateu. De acordo com o francês André Comte-Sponville (1952-), no seu Dicionário Filosófico, uma delas é não crer em Deus, a outra, crer que Deus não existe. No primeiro caso, temos uma ausência de crença (ausência de Deus) que Comte-Sponville define como “ateísmo negativo”; já no segundo caso, temos uma crença numa ausência (negação de Deus), posição que o filósofo classifica de“ateísmo positivo ou militante”.

Não podemos nos esquecer daqueles que não crêem nem desacreditam na existência de uma ou várias divindades; estes, em face dos infindáveis debates entre ateus e religiosos, acabam não optando por uma tese nem por outra, suspendendo assim seus julgamentos. Estamos falando dos agnósticos ou céticos.

Nesse sentido, tanto os ateus quanto seus adversários religiosos – sejam eles teístas, místicos, esotéricos ou deístas – seriam, cada um a seu modo, crentes, com exceção talvez dos ateus negativos, os quais estariam próximos do agnosticismo.

O fato de terem convicções e de proporem uma doutrina, porém, não faz dos ateus religiosos nem do ateísmo uma religião, visto que nem toda doutrina metafísica é necessariamente uma religião, mesmo que os ateus sejam dogmáticos na negação da existência de uma causa criadora do universo; tampouco parece adequado considerá-los mentores de uma nova teologia.

Embora expressem discursos especulativos essencialmente metafísicos, ateus e religiosos representam o confronto de crenças e dogmas absolutamente antagônicos: de um lado, a convicção pétrea numa força superior e sobrenatural que deu início e sentido a tudo; do outro, a idéia da ausência de uma criação, a hipótese da eternidade da matéria, a gratuidade e, conseqüentemente, a falta de sentido ou o sentido absurdo da existência humana. O absoluto na forma de Deus ou na forma do Nada.

Ateísmo e teísmo seriam então as duas faces antípodas do absoluto. Portanto, o ateísmo não seria uma nova teologia só porque propõe um absoluto (o Nada, metafisicamente entendido), mas sim a sua veemente negação, uma antiteologia ou ateologia.

O filósofo francês Michel Onfray encarna como ninguém na atualidade esse “ateísmo positivo ou militante” do qual nos fala o também deicida Comte-Sponville. A propósito, Onfray é autor do livro Tratado de Ateologia, best-seller que vendeu, em 2005, mais de 170 mil exemplares só na França.

A polêmica suscitada pela obra foi tanta, que, além das inúmeras ameaças de morte feitas por fiéis dos três monoteísmos reinantes no mundo fustigados pelo livro, até um antitratado de ateologia foi lançado em resposta.

Discutindo filosofia

2 comentários:

José dos reis disse...

A verdade inerente.
De: José dos reis Santos.
(Poeta procopense)

A verdade, na verdade por ser absoluta, difere de qualquer razão pensante.
Portanto em detrimento das conjecturas dos pensadores, questionadores etc. sempre estará à frente deles.
Crer na existência de Deus, não é apenas um estado confortável de amenizar nossos próprios confrontos e sofrimentos.

Essa atitude, que é contraproducente à própria vontade,
Têm em si mesmo a permissão de aceitar sua crença ou não, de acordo com seu merecimento espiritual: portanto podem pensar a vontade. kkkk!

As Muitas Vidas ... disse...

Abordar a posição do ateu sob a forma de "crença" na inexistência de Deus é uma grande bobagem. Ora, se Deus, segundo estudos antropológicos, é uma invenção de homens primitivos, não se trata de crença, mas de conhecimento de que Deus é criação humana. Ele começou como um fetiche, xamã ou totem, logo transformados em divindades,deuses, semideuses, e finalmente transformados no Deus único, mas todos são da mesma natureza.
Uma das provas de que religião, superstição e mitologia têm a mesma origem está na constatação de que tudo que está em uma está em outra.