sábado, 14 de abril de 2007

A escolha do ateísmo

Ser ateu é provocar grande polêmica, mesmo nos dias de hoje. Se considerarmos que toda a crença em entidades não fisicamente observáveis exige uma aceitação não racional de sua existência (fé), acredito que se deva tomar uma opção coerente com relação à aceitação ou não-aceitação de todas elas. Esse argumento chave tentará, seguindo premissas lógicas, mostrar porque a opção do ateísmo e do ceticismo é mais lógica do que a fé ou do que a dúvida.

Antes de entrar no argumento principal gostaria de comentar que ninguém realmente se preocupa se uma pessoa é católica, budista, espírita ou evangélica. Ter uma religião, qualquer que seja, parece ser um comportamento bem aceito na sociedade de hoje. Entretanto, a falta de religião é vista como um radicalismo extremo, algo impensado e sem razão, afinal, como uma pessoa pode viver sem ter fé? O paradoxo é que é a fé que exige a falta de razão de um indivíduo.

A fé é a crença máxima que uma pessoa pode ter sem que, para isso, necessite de qualquer prova ou fundamento. Eu posso ter fé que Adão e Eva existiram ou que existe o coelhinho da páscoa, papai-noel ou Deus. Em que esses exemplos são diferentes? No ponto de vista de um cético, nada. Afinal várias pessoas afirmam já terem visto papai-noel ou Deus, entretanto não temos qualquer prova física e irrefutável da existência (ou não-existência) de nenhum deles. Acho que a principal queixa contra o ateu é o fato de que os crentes os vêem como uma pessoa maligna e sem princípios, esquecendo-se que é possível ter uma moral e uma ética sem ter uma religião.

Observando a história da humanidade podemos ver que muitos fenômenos naturais, antes de serem explicados cientificamente, eram tidos como obras de Deus. Em tempos mais remotos, os homens rezavam para que o sol nascesse no dia seguinte, índios dançavam para os Deuses da chuva e se amedrontavam com a fúria deles durante eclipses e outros fenômenos naturais. De fato, se você realizar bastante a dança da chuva, com certeza irá chover algum dia (mas será mais fácil se você o fizer no verão).

Diversos mitos também foram aos poucos caindo por terra, logo que ficavam ridículos e completamente fora da realidade de seus tempos. Quem, nos dias de hoje, acreditaria realmente em uma pessoa que viu um duende, um minotauro, um elfo ou a fada sininho? A única coisa que as pessoas hoje em dia podem acreditar ou ver, para ao menos serem levadas em consideração, são espíritos e alienígenas (ou OVNIs). Mas há uma boa diferença entre esses dois seres. Os espíritos se enquadram no mesmo grupo onde já estão os duendes, unicórnios, dragões, papai-noel e Deus, ou seja, não se pode provar que existam ou que não existam. Já os alienígenas são realmente mais bem cotados, pois podem existir fisicamente e, portanto, não exigem que formulemos novas leis e conceitos científicos ou psicológicos para explicar sua existência. Entretanto parece que a grande maioria dos relatos sobre OVNIs e alienígenas são bastante incompletos e inconclusivos, o que os leva, nesse momento, para dentro do mesmo grupo anterior, constituído daqueles seres nos quais não se prova, ainda, a existência ou inexistência.

Portanto considero que a escolha do ateísmo é, por si só, uma escolha coerente. Por que acreditar em Deus, mas não acreditar em elfos, duendes, fadas, vampiros, no capeta ou qualquer outro ser que eu acabar de inventar? Para todos eles não há nada que comprove ou não suas existências. Acredito que uma pessoa com um mínimo de coerência vai concordar que existem apenas duas opções racionais nesse caso: ou acredita-se em tudo pela fé, ou duvida-se de tudo até que alguém prove o contrário.

Portanto chegamos agora a um ponto chave da questão do ateísmo. Da mesma forma que não se pode provar que Deus existe, não se pode provar, por outro lado, que Ele não exista. Devemos abrir um parêntese nesse momento para discutir a dificuldade que existe em provar uma negação. Poderíamos facilmente provar que dragões existem se, para isso, encontrássemos apenas um exemplar em algum lugar e pudéssemos examiná-lo de forma completa, certificando não se tratar de uma fraude. O que é realmente impossível provarmos é a não existência de dragões, já que eles poderiam existir em qualquer lugar ainda não explorado, seja aqui mesmo na Terra, nas luas de Júpiter ou Saturno, ou em algum lugar fora do sistema solar. A questão intrigante que se observa nesse fato é que os crentes sempre exigem que o ateu lhes dê uma prova da inexistência de Deus, sendo que, o mais simples, seria provar a sua existência.

Mesmo considerando que seria mais fácil provar a existência do que a inexistência não temos, no momento, qualquer prova de nenhuma das duas e, portanto, poderíamos pensar que a opção ideal e mais inteligente fosse, simplesmente, não ser nem ateu, nem crente, poderíamos ficar em cima do muro, não acreditando nem desacreditando. Essa filosofia de vida tem um nome, é a agnose. O agnosticismo está relacionado à negação das crenças e o agnóstico é um indivíduo que está definitivamente em cima do muro e não toma qualquer partido de uma ou outra causa.

Entretanto gostaria de argumentar que o ateísmo é realmente uma opção mais racional do que o agnosticismo. O agnóstico está sim em cima do muro com relação à existência de Deus, mas, se for coerente, deve também estar em cima do muro com relação a todos os outros seres místicos dos quais não se prova a existência ou não, incluindo o papai-noel.

É importante notar que, quando digo ateísmo, não estou me referindo ao ateísmo dogmático, aquele em que o indivíduo nega a existência de Deus de forma categórica e radical (se igualando, de forma contrária, aos teístas). Defendo o ateísmo não-dogmático, que duvida da existência de Deus até que se encontre alguma prova irrefutável desta. Se algum dia me apresentarem de uma prova irrefutável de que Deus existe desistirei de meu ateísmo e me tornarei crente.

Acho que o mais fundamental com relação às crenças é o fato de se tomar uma atitude coerente com relação a todas elas, pois, na verdade, elas se baseiam no mesmo princípio. Portanto, parece-me que a opção mais coerente é manter-se cético com relação a qualquer tipo de crença não comprovada, até que essa crença seja de fato comprovada. Afinal, se um dia eu for capaz de ver um velhinho voando num trenó, puxado por renas, vestido de vermelho, cheio de presentes e falando “Hohoho”, minha crença mudará automaticamente e acreditarei na existência do papai-noel.

Francisco Prosdocimi Santos

Sociedada da Terra Redonda

Um comentário:

biodados disse...

Assunto interessante a religião. Alguns que a estudam acham que ela evolui. E o mais engraçado, apontam duas religiões basais, ateísmo existencial e ateísmo conceitual. No existencial Deus não existe mas eu sigo seus preceitos. Na conceitual acredito em Deus, mas eu não to nem ai e metralho umas pessoas de vez em quando. Das basais deriva uma em que o Deus está presente na natureza, e desta as religiões que falam com Deus (e o descobrem) e a mais recente é uma que entende que ele falou com a humanidade (e se revelou). Mas todas religiões sabem que não passam de hipóteses e adorariam poder saber mais sobre o fenômeno. Por isso a fé, igual à que a gente tem quando acha que um mecanismo está por trás de um fenômeno e tenta desenhar um experimento para ver se o fenômeno se comporta como o esperado pelo mecanismo no qual se tem fé. Lembrem: lógica como termo técnico foi abandonada no século 19, quando precisávamos conhecer o todo para entender o elemento - se o paciente não cabe na cama cortem-lhe os pés. Hoje não usamos lógica na ciência, não precisamos conhecer todas as possibilidades para eliminando-as sobrar o mecanismo. Não é mais um Sudoku. Usamos de fé e enquanto os testes forem compatíveis mantemos a fé no mecanismo. Se alguém demonstrar que o mecanismo não opera como devia sob novos testes, o mecanismo cai e assim vamos!