quinta-feira, 12 de abril de 2007

Não basta ser ateu

Ateu é quem não acredita em deus, não admite a divindade de Cristo, não aceita a existência do céu e do inferno, recusa o milagre, repudia o caráter divino da Bíblia etc..

Caracteriza-se o ateísmo pela ausência das convicções que constituem o repertório mental do crentes nas religiões teológicas ou pela negação delas, em suma, por um estado negativo: ser ateu corresponde a descrer no em que outros crêm. Nesta condição de descrença acham-se os próprios teológicos (adeptos das religiões tradicionais, como o cristianismo). De fato, se, por um lado, eles crêm na existência de deus, na divindade de Cristo etc., por outro, descrêm na existência dos deuses olímpicos, como Zeus, Júpiter, Minerva, na de duendes, na do coelhinho pascal, etc. Neste sentido, os teístas monoteicos (crentes em deus) são ateus face às divindades diversas da sua, como os deuses politeicos, que caracterizaram a religião na fase anterior à do monoteísmo.

Por si só e independentemente de qualquer outra convicção, o ateísmo afasta as superstições, o obscurantismo, as crendices, as irracionalidades, as fantasias, em suma, liberta o indivíduo de todas as ilusões relativas à teologia, o que representa um benefício de valor incontestável. Ele encarna o ateísmo negativo, caracterizado pela ausência de conteúdos mentais que se deve evitar.

Porém não acreditar em deus não basta. A ausência de deus não equivale necessariamente e não pode equivaler a ausência de valores, de ética, de honestidade, de princípios de conduta. Aos indivíduos quaisquer, teológicos, ateus ou indiferentes, são precisos valores com que se discirna o bem do mal, ideais que norteiem a vida humana e confiram-lhe sentido, conhecimentos que permitam a cada indivíduo entender o funcionamento do mundo, critérios que orientem o relacionamento de cada um com o próximo. Em uma palavra, o ateísmo deve assumir uma conotação positiva: não se limitando a negar a idéia de deus e a teologia, deve substitui-los por conceitos laicos.

Positivamente entendido, o ateísmo implica a convicção de que a explicação do mundo provém da ciência (e não dos livros alegadamente revelados pela divindade); a identificação do Bem e do Mal conforme o que favorece ou contraria a felicidade individual e o bem-estar do próximo; o empenhamento por uma instrução racional e científica; a afirmação de uma política internacional pacifista; uma ética cujo princípio fundamental corresponda ao do altruísmo; um senso de retidão moral que prove, pelo caráter de cada ateu, as virtudes do ateísmo. Deve o ateísmo positivo equivaler a um sistema 1) de conhecimentos verdadeiros, porque verificados pela experiência, 2) de sentimentos benevolentes face ao próximo, que inspirem quer o comportamento individual, quer os critérios da moral, quer as diretrizes da política, 3) de atividades socialmente úteis, tendentes a melhorar a condição de vida das pessoas, fora de qualquer espécie de violência internacional ou intestina.

Nestas condições, ateu será aquele indivíduo dotado de conhecimentos reais, inspirado por sentimentos louváveis e ocupado com atividades socialmente benéficas.

Chamemos a este tipo de ateu, de ateu positivo.

A idéia de deus evoluiu ao longo dos séculos, a partir do feiticismo dos povos primivos, passando pelo politeísmo greco-romano, até resultar no monoteísmo, cuja expressão mais sofisticada verificou-se com o cristianismo, achando-se destinada a desaparecer, por força da evolução fatal da humanidade, à medida em que se propagam a racionalidade e a mentalidade científica. Conceito que se alterou historicamente, o de deus foi compatível com o estado das civilizações do pretérito e é incompatível com o seu estado no presente, motivo porque, útil ao desenvolvimento histórico da humanidade em tempos primevos, a teologia tornou-se um obstáculo à continuidade deste progresso.

Esta consideração histórica leva o ateu positivo a reconhecer nas religiões como o catolicismo, relíquias do passado, reduzidas, hodiernamente, a tristes superstições cujo combate impõe-se. Sem lhe reduzir em nada a liberdade de crítica anti-teológica, tal entendimento infunde-lhe um certo respeito pelo papel útil que as religiões teológicas desempenharam. O ateu positivo enxerga nas religiões tradicionais monumentos do passado, ciente de que a religião é um fenômeno inerente à natureza humana e de que as formas teológicas de que se revestiu até o presente são obsoletas e devem ser substituídas por formas ateológicas, laicas, seculares, fundamentadas no conhecimento que a ciência propicia e voltadas ao aperfeiçoamento humano.

Não se contentando com achincalhar as religiões tradicionais no que elas contém de falso, o ateu positivo busca instruir-se para justificar, perante si próprio o seu ateísmo, e para demonstrar a terceiros a superioridade dele face aos teologismos quaisquer. Demais, pela correção da sua conduta, pela exatidão no cumprimento dos seus deveres, pela virtude do seu caráter, pela bondade dos seus sentimentos, pelo alcance da sua cultura, pela sua preferência por esclarecer os teológicos ao invés de os atacar, por tudo isto, o ateu positivo deve ser a demonstração direta e pessoal de que o ateísmo constitui uma filosofia e um modo de vida perfeitamente recomendável. A melhor divulgação atéia há de ser o caráter e o comportamento dos ateus.

Uma espécie de ateísmo é o Positivismo. Todo ateu é um positivista espontâneo, porquanto os ateus individualizam-se pela recusa de todo sobrenatural, recusa de que o Positivismo comunga acrescentando-lhe a substituição de tudo quanto é sobrenatural, por tudo quanto é humano. Todo positivista é um ateu positivo sistemático, ou seja, um ateu positivo convicto desta condição, porquanto o Positivismo, admitindo na teologia um valor meramente histórico, reputa-a inteiramente obsoleta, substitui-a pelo conhecimento científico e adota como ideal conhecer, amar e servir à Família em que nasceu, à Pátria em que vive e à Humanidade que integra.
Arthur Virmond de Lacerda Neto

2 comentários:

Edo & Beto disse...

o lindo.
Parabéns.

Prof. Itamar disse...

Tu disseste, entre outras coisas: "Deve o ateísmo positivo equivaler a um sistema 1) de conhecimentos verdadeiros, porque verificados pela experiência...".

A própria Filosofia da Ciência contesta o valor de verdade conferido historicamente à ciência. A pergunta filosófica que se faz, então, é: a ciência busca a verdade? O que é a verdade?