quarta-feira, 11 de abril de 2007

Símbolo do ateísmo

O ateísmo atómico

«...a natureza é sempre a mesma, e sempre única e igual em eficácia e poder de acção; i.e., a ordem e as leis da natureza, dentro de todas as passagens e mudanças de uma forma para outra, é em todo lugar sempre a mesma; sendo assim, deveria existir um método unico para compreender a natureza de todas as coisas, ou seja, através das leis e regras universais da natureza.» Baruch Spinoza (Ética, parte III)

O símbolo do ateísmo, o modelo do átomo de Rutherford, poderá a um observador mais incauto parecer despropositado ou uma escolha casuística. Na realidade, a concepção atomista do Universo corresponde à primeira filosofia ateista de que há registo histórico e é indissociável dos movimentos intelectuais que culminaram no libertar da Humanidade do obscurantismo imposto pela religião. Durante séculos, esta teve a primazia da verdade, que afirmava ser global, inultrapassável e indispensável, tanto no que respeita à natureza como ao homem. O reafirmar do pensamento proscrito dos primeiros atomistas entrou em confito com a pretensão tridentina da verdade «científica» ditada por uma Igreja total e absolutamente incompetente na matéria, mas a longo prazo (e muitos processos e fogueiras inquisitoriais) permitiu à ciência uma autonomia de pensamento face à Igreja.

A constituição da matéria e a elaboração de teorias para explicar a natureza do mundo e as nossas relações com ele surgem na Antiguidade clássica a partir da análise do movimento. O movimento e a constante mutabilidade da matéria constituem a questão central que irá orientar a filosofia grega; isto é, o movimento levanta o problema da continuidade da matéria, ou seja, como conceber que exista uma identidade entre o momento anterior e o posterior?

Era necessário, portanto, algo que permanecesse imutável no processo de transformação. Esse algo foi originalmente concebido através da redução da multiplicidade a uma unidade fundamental, identificada com um elemento da natureza, a matéria básica para a formação dos demais materiais, e na qual todos se reduziriam. Esse elemento primordial, ou "princípio" (arqué), assumiria a forma de uma substância concreta, sendo identificado com a água (Thales 640-546 A.C.), depois o ar (Anaximenes 560-500 A.C.), o fogo (Herakleitos 536-470 A.C.) e a terra (Xenophanes).

Mais tarde, Empedokles (490-430 A.C.) identificou as quatro substâncias supracitadas - água, ar, terra e fogo - como os elementos fundamentais a partir das quais tudo seria formado.

Por volta de 475 BC, Parmenides no seu poema filosófico On Nature esboçava os rudimentos do que seria explorado dentro de poucos anos pelos primeiros atomistas:

«Considerem quão semelhante é um fogo de outro fogo.
Mas reparem quão opostas em natureza são todas as noites escuras do fogo.»

Parmenides afirma que, não obstante diferentes aparências, tudo é formado do mesmo ser, solitário, nunca criado e eterno, aquele que é «sem princípio e sem fim». Parmenides não especula sobre a natureza do «ser eterno» mas fornece dois dados fundamentais que as teorias atomistas retomam: todos os objectos do mundo físico são constituídos por uma substância elusiva e constante, que não é criada e nunca acaba, devendo-se as diferenças entre objectos a diferentes configurações dessa substância.

átomos de EpicurusAo conciliar a concepção da permanência e da unidade, em aparente contradição com as evidências de mudança e de diversidade observadas, fundamenta-se então a unidade da matéria e a sua conservação. Mas até aqui a dualidade foi expressa em termos do móvel em oposição ao imóvel. A partir de Democritus e especialmente de Epicurus esse dualismo inscreve-se como «matéria»/«vácuo» com base na concepção da unidade fundamental: os átomos. Estes seriam indivisíveis e em si mesmos imutáveis, embora a alteração da sua posição relativa produzisse uma grande diversidade de fenómenos. Estes átomos difeririam em tamanho e em forma, e apresentariam uma constituição interna sólida e homogénea.

Leucippus de Miletus (?-480 BC) e o seu discípulo Democritus de Abdera (460-340 BC) são os pais reconhecidos do atomismo, uma explicação filosófica do mundo físico absolutamente inovadora, que, na linha sugerida por Heráclito, afirma que tudo flui na natureza mas que subjacente a esta mutabilidade há algo de eterno e de imutável: o átomo (a= prefixo de negação, tomo= divisão). Nesta explicação do mundo natural o calor, cor e sabor não são em si entidades mas meras consequências dos átomos que as formam. Para avaliarmos a inovação e arrojo desta visão, puramente empírica, da natureza, basta pensarmos que o calor foi considerado um fluído até meados do século XIX, o calórico de John Dalton (1766-1844), o pai do atomismo moderno.

Epicurus (341-270 BC) reformulou o atomismo de Leucippus e Democritus e o epicurismo, não muito popular entre os filósofos gregos, nomeadamente Aristóteles e Platão, que adoptaram os quatro elementos fundamentais de Empedokles, teve entre os romanos os seus principais seguidores, alguns tão influentes como o orador Cícero e o poeta Horácio. A insistência epicurista em causas materiais para todos os aspectos da natureza foi incompatível com a influência crescente do cristianismo e no século V o epicurismo já era uma filosofia marginal.

De facto, o cristianismo condenou primeiro e proibiu depois esta filosofia ateísta que, para além de refutar a transubstanciação do pão e do vinho, negava a intervenção de qualquer força, inteligência ou entidade divina nos processos naturais. Não havia intenção no movimento (aleatório) dos átomos, o que não implica que tudo o que acontece é um acaso, pois tudo é regido pelas inalteráveis leis da natureza. Os atomistas acreditavam que todos os fenómenos têm uma causa natural, ou seja, negavam o argumento teleológico.

Os movimentos espontâneos e aleatórios dos átomos para além de serem a origem do livre arbítrio explicam ainda as percepções sensoriais. De tudo o que existe emanam átomos que, ao chocarem com o corpo humano, tornam a realidade inteiramente apreensível pelos sentidos.

Epicurus propõe ainda que a alma é composta por átomos especiais, particularmente arredondados e lisos, os átomos da alma espalhados por todo o corpo. Quando alguém morre, os átomos de sua alma dispersam-se e eventualmente agregar-se-ão (devido aos movimentos aleatórios) noutra ou noutras almas, ou seja, o epicurismo afirmava a mortalidade da alma.

É impossível referir o epicurismo sem mencionar Lucrecius, o poeta romano e autor do épico filosófico De Rerum Natura (Da natureza das coisas), uma exposição exaustiva do epicurismo, que afirma os deuses como fabricação dos homens. Redescoberto no século XVII, o poema é a base intelectual de virtualmente todas as ciências modernas, da física (apresenta, entre outros, a lei da inércia, a relatividade, a universalidade das leis físicas, o movimento browniano, o som como onda de pressão no ar) à química (prevendo átomos e moléculas e que, por exemplo, o cheiro se deve à forma das moléculas que se ligariam a receptores no nariz) passando pela biologia, incluindo o evolucionismo (Lamarck, Herbert Spencer ou Darwin eram epicuristas), já que Epicurus foi o primeiro a propor a selecção natural e a evolução das espécies.

Palmira F. da Silva

Diário ateísta

10 comentários:

DANIEL CARDIAL disse...

bom mano, vi seu comentario e acho que todos tem o direito de crer ou descrer em qualquer coisa.
nao crer em uma igreja ou algum racional que funda um conceito e...e uma coisa
nao crer em Deus e canseira, sabe porque?
o mesmo nao fala nada nem com quem crer.

Allysson disse...

porra nenhuma seu otário

Henrique disse...

Velho muito bom!! Vou estar usando sua imagem como simbolo de um novo blog sobre anti-religião, entre em contato pelo meu email ateunuado(AT)gmail.com e me manda um link que eu ponho uma referência permanente no blog!

Minha opinião: Se Jesus existiu, ele foi um grande filósofo :]

mercúrio disse...

Tenho 38 anos e no longo da minha vida, mesmo batizando não vi ou encheguei a existência de Cristo Jesus.

Pela minha vivência de vida, onde se conspirou um psedônimo de prefixo de São Thomé, crer para ver , vi com meus próprios olhos aquilo que a mão de Deus consumiu.

Vi coisas que o diabo dúvida, e que Deus repudia e não consta nos relatos biblicos cujo detém testemunhas oculares.

Mais pude perceber que Deus é mal e vingativo e não um Deus de Amor, foi o caso de Caim que mesmo colocando duas oferendas ainda sim prevaleceu no coração a Inveja.

O que existe e um temor sobre a glória de Deus, onde não sabemos o teor do desconhecido, e isso não trará beneficios para humanidade, mesmo porque se Cristo Jesus fosse tão importante certamente a humanidade não passaria fomer.

Mostrando que tem uma psicologia,doutrina e psicologia contraditoria com as forças do mundo, o que vejo são pessoas procurando o pseodônimo ou mentafora para o verbo, onde o verbo era Deus e habitava sobre nós..


Estudam,criam leís,constroi,arquitetam,administram,curam,revitalizam pelo poder da fé, cujo e uma fé inanimado quer seja natural ou sobrenatural, de qualidade e de intensidade.

O que podemos comedir na realidade, e a probilidade do alcance de Deus, onde cada pessoa tenta contrariar os designios de Deus e achar a porta ou janela para seus anseios pessoais.

Uma coisa e certa os anos vão passando e cada dia mais e mais as pessoas vão envelhecendo dando espaço a uma displasia ou frustração, que se chama insegurança, mesmo porque o que existe mesmo de concreto na vida das pessoas e a morte.

Tentamos achar respostas quer seja no mundo sobrenatural quer seja no fisico, resposta que não vamo encontrar nunca, mesmo porque não existe resposta para as coisas de Deus.

Se existe Deus e uma atenuante para o Edem 21 e briga celestial pela soberania de Deus, mais pelo que vi na minha existência que pelo poder da fé vc pode transformar montanhas, mover estrelas e cair toda um constelação conforme a intensidade do amor do provavel Deus por vc, somos diferente em cada especie, ninguem e iqual a ninguem, cada um vem com um talento ou dom para tentar decifrar se realmente existe vida após a vida.

O que existe de verdade mesmo nisto, e missero orgasmo sentimental que provavelmente dara vida a um ser que nem sabe se realmente e amado por Deus.

A criação da Vida para mim, e mais que esperma procurando morada, a criação da vida para mim e um ato de coragem , determinação,sabedoria e de vida para contrariar a vontade dos homens mortais e contrariar a léis de Deus.

Foi assim com grandes mestres da criação e vai ser assim com futuro predestinado de Deus, se necessario for nasce de uma jumenta, ou até mesmo de um extraterrestre porque Deus pelo que me disserni não tem acepção de pessoas, o ser humano e carente de sabedoria onde procura no universo para resposta do seu Ego.

A vida e a resposta de uma ato de fé, cujo talvez pelo designios de vida não ache resposta e deixe dentro do coração,alma e espirito do homém a dor ,angústia o desamor, pelo fato de não ser correspondido pela a lei do homem e Deus.

Sobre o clamor a súplica do homem se realmente provir da leis que regem a missericordia de uma possivel Deus, assim poderemos saber se Deus Existe.

Abraços

Rei Davi 2014
A taça é nossa
Oriom

Aquele q nunk morre!!! disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Aquele q nunk morre!!! disse...

Eu só tenho 14 anos, minha familia é toda catolica ( o que é um saco), eu cheguei a ser batizado e tals, eu acreditava na existencia de deus, eu até era bem fiel.
Eu deixei de acreditar, quando minha cachorrinha (eu era bem novinho, tinha uns 11 ou 12 anos) estava doente, ela era a minha unica compania, pois eu era filho único(não sou mais, pois graças a reprodução humana hj eu tenho uma irmazinha), bem eu fiquei muito abalado, eu rezei muito, porque minha mãe me dise que se eu tivesse fé ela seria curada,mas como já era de se esperar ela acabou morendo.
Apartir disso eu procurei achar explicações racionais para tudo, depois de um tempo eu deichei de acreditar em deus.
Acho que isto é um processo natural da evoluição do pensamento, pois quanto mais sabemos, de menos deuses nós precisamos.

shadow disse...

somos energia em constante tranformacao...

Magoga disse...

Segundo Mercúrio, pela fé podemos tudo, porém o texto por ele postado mostra que nem tudo ou quase nada, pois nem escrever inteligivelmente a fé permite...

O comentário logo abaixo, postado por um garoto de 14 anos, vai ao centro de toda a questão da religião: quanto mais evoluímos, menos necessitamos do sobrenatural para guiar nossas vidas!

Edimilson Lourenco disse...

Olá boa noite para todos Nós !
Eu resumo que as Religiões se sustentam simplesmente no Fundamentalismo que é: a Doutrina ou prática em setores de várias religiões, que consiste em interpretar literalmente os textos sagrados,tornando suas palavras como únicas verdades.
Em religiões, doutrina que se apoia na autoridade de sua fonte, que deve prevalecer sobre qualquer dúvida dos Fiés

Edimilson Lourenco disse...

Olá boa noite para todos Nós !
Sou Praticante do Ateísmo por Opção Pessoal.
Naveguei no blog achei bom, e o recomendo;foi de muita vália para o meu conhecimento.
" Milhares de anos de Religião nos levaram à idade média,
200 anos de Ciência nos levaram à lua."