domingo, 29 de abril de 2007

Ateísmo: o caso contra deus

Este discurso foi proferido para a Sociedade de Separatistas em 1976.

Estou especialmente feliz em falar para o encontro da Sociedade de Separatistas porque, como devem saber, há poucas organizações explicitamente pró-ateísmo restantes no mundo, sem mencionar nos Estados Unidos. E, das que restam, a S.O.S é, sem dúvida, a maior e mais ativa. Visto que estarei me dirigindo a uma organização ateísta, falarei a vocês, na maior parte, como companheiros ateus. Não tenho a intenção de converter ninguém nem insultarei as suas inteligências atacando o cristianismo, a Bíblia e assim por diante. Em vez disso, estarei empenhado basicamente em discutir o que o ateísmo é, por que é importante e como melhor defendê-lo. E, caso haja alguns religiosos na audiência, convido-os a permanecer e experimentar, por uma tarde, a sensação de fazer parte de uma elite intelectual.

Antes de discutir o ateísmo diretamente, gostaria de tecer alguns comentários preliminares que são bastante importantes, pois, a não ser que se compreenda minha perspectiva filosófica geral, não penso que compreenderão minha visão do ateísmo. Se há um grande problema intelectual na América de hoje, diria que é uma crise de credulidade. Ou, mais diretamente, diria que estamos contaminados de credulidade na América. Nunca deixo de me espantar com o quanto as pessoas estão dispostas a aceitar crenças absurdas e imbecis, não apenas sem o respaldo de evidências, mas freqüentemente diante de evidências conflitantes. Diz-se às vezes que a religião está em declínio da América; todavia, mesmo se isso é verdadeiro, não estamos observando um declínio correspondente do irracionalismo. O irracionalismo – pelo qual refiro-me ao ignorante desprezo ou desrespeito à razão – ainda está forte. Este muda de forma de tempos em tempos, mas ainda está entre nós. Deste modo, enquanto podemos dizer que algumas religiões tradicionais do ocidente parecem estar em declínio – e têm estado por algum tempo –, o irracionalismo continua a levantar sua carantonha, seja na forma de ocultismo, misticismo oriental ou na forma de Uri Geller, filmes de possessão demoníaca e mesmo alguns grupos psicológicos que estão mais próximos de cultos religiosos que de qualquer psicologia legítima.

Então, a que se pode imputar esse agravamento do irracionalismo na América? Bem, indiscutivelmente há muitos fatores envolvidos, mas um dos mais significantes é a incapacidade ou a indisposição da parte de muitas, muitas pessoas de raciocinar bem. A maior parte das pessoas não sabe como pensar criticamente além de um nível muito rudimentar. A América, com toda a sua ênfase em tecnologia e ciência, continua a produzir uma abundante colheita de intelectuais vegetativos que nem se importam com o que é verdadeiro – ou, se se importassem, com como averiguar o que é verdadeiro. Não nos enganemos quanto a isto: não nascemos com a habilidade de raciocinar pronta. O raciocínio precisa ser aprendido e praticado. Mesmo com orientação adequada, pode levar anos para hábitos adequados de raciocínio se enraizarem ao ponto em que se tornam uma segunda-natureza.

Supõe-se que temos uma natureza educada, mas qual foi a última vez que alguém ouviu que um curso sobre pensamento crítico estava sendo ministrado no ensino-médio, por exemplo? Já se perguntaram por que, quando crianças estavam sendo entulhadas com todos assuntos – de geografia a estudos sociais e outros tópicos inúteis –, não lhes foi dada a oportunidade de aprender a pensar corretamente? Bem, não surpreende se pensarmos sobre isso, pois não é possível ensinar o pensamento crítico sem, inevitavelmente, pisar no calo de alguém. Pode-se imaginar a reação de muitos pais se Johnny voltasse para casa com a tarefa de investigar as evidências da ressurreição de Jesus? Obviamente, isso não daria muito certo.

A conclusão à qual quero chegar a respeito do ateísmo neste assunto é esta: o ateísmo somente é importante quanto visto neste contexto mais amplo que denominarei o “hábito da racionalidade”. O ateísmo é significante apenas se e quando resulta deste hábito da racionalidade. A criança americana que cresce para ser uma batista apenas porque seus pais eram batistas e nunca pensa criticamente a respeito de tais crenças não é necessariamente mais irracional que a criança soviética que cresce para ser ateísta simplesmente porque o Estado diz que deve ser ateísta. O fato de que a criança soviética, neste particular, está na posição correta é irrelevante. O importante não é o que alguém acredita – ou o conteúdo –, mas por que alguém acredita. Então a questão da racionalidade pertence à preocupação com a verdade, preocupação com a metodologia de raciocínio correta. Apenas porque uma pessoa adere ao ateísmo, isso não garante – acreditem – que esta pessoa é necessariamente racional.

É basicamente por esse motivo que nunca defendo ateísmo per se, sem um contexto mais abrangente. O ateísmo é significante, não há dúvidas. Entretanto, sua significância deriva inteiramente do fato de que representa a aplicação da razão a um campo particular, especificamente a área da crença religiosa. O ateísmo, a não ser que esteja enraizado nesta defesa filosófica mais ampla da razão, é praticamente inútil. Todavia, quando este é uma conseqüência do hábito da racionalidade, então o ateísmo está em oposição à onda de sobrenaturalismo e misticismo que estamos presenciando – em outras palavras, irracionalismo em quaisquer de suas formas.

Isso significa que o ateísmo não chegará muito longe simplesmente atacando crenças religiosas. Em vez disso, temos, antes de tudo, de defender a razão, e então criticar a religião dentro desse contexto. Se você compreender que a maior parte das pessoas adota a religião por razões psicológicas em vez de intelectuais, compreenderá por que penso que ataques diretos, frontais à religião muito raramente persuadem alguém ao ateísmo. Se – como ateus têm indicado por muitos anos – a religião é uma muleta emocional e psicológica, então não se consegue que uma pessoa fique em pé simplesmente chutando a muleta – isso fará a pessoa agarrá-la ainda mais. No lugar disso, precisamos primeiramente convencer a pessoa de que a muleta é desnecessária e mesmo prejudicial. E, então, será possível convencê-la de que é capaz de viver muito melhor sem a muleta. Assim, não é necessário chutá-la – neste ponto, a própria pessoa a jogará fora.

Para demonstrar que não há necessidade de uma muleta religiosa, precisamos primeiramente nos empenhar em demonstrar o papel crucial e significante da razão na vida da pessoa – filosoficamente, psicologicamente, praticamente e todo o resto. Acima de tudo, há uma mensagem que devemos comunicar: ninguém tem nada a perder e tudo a ganhar com a busca honesta pela verdade. O desejo pelo conhecimento, pelos fatos isentados de preconceitos emocionais, e assim por adiante, sempre funcionará em benefício do indivíduo em longo prazo. Nunca poderá ser contra seu interesse saber o que é a verdade.

Portanto, para o ateu efetivamente comunicar sua mensagem, deve demonstrar racionalidade em todos os aspectos e áreas de sua vida. Não se pode defender o pensamento livre e crítico sobre religião e então demonstrar conformidades servis em outras áreas de sua vida intelectual, como suas crenças políticas. Qualquer defesa do ateísmo feita por uma pessoa que compartimenta suas crenças desse modo está sujeitando apenas algumas delas ao escrutínio – e isso, com justiça, cheira desonestidade. O ateu será prontamente acusado de hipocrisia. Está disposto à análise crítica de crenças apenas parcialmente.

A razão de estar mencionando isso é que, além do meu ateísmo, o qual algumas pessoas consideram bastante radical, também nutro crenças políticas que, em vários aspectos, são radicais. Sou aquilo que se denomina libertário. Devo admitir que me espanto quando sou confrontado por companheiros ateus que parecem desesperados por minhas crenças políticas, não porque discordam delas – o que, sem dúvida, é seu direito –, mas simplesmente porque sou politicamente radical. Minha conclusão é esta: se você tem medo do termo “radicalismo” – se a idéia de ser intelectualmente radical lhe assusta –, então ser ateu não é o mais conveniente. O ateísmo, aos olhos da maior parte das pessoas, certamente é a posição mais radical que se pode adotar.

Assim, esta é a primeira idéia principal que desejo enfatizar: se você terá um impacto significante sobre a comunidade religiosa, penso que é necessário colocar o ateísmo dentro de uma perspectiva mais ampla de razão. Permitam-se elaborar um pouco mais o que quero dizer com “hábito da racionalidade”. Há muito a ser dito sobre isso, mas, por óbvias limitações de tempo, farei um esboço.

Antes de tudo, farei uma distinção entre raciocinar e pensar. Considero o pensar como qualquer tipo de processo mental, cognitivo. Se você estiver devaneando, lembrando ou coisas do gênero, diz-se que está pensando. Raciocinar, entretanto, é um termo muito mais específico. A razão diz respeito a um processo mental dirigido a um objetivo, cuja finalidade é adquirir conhecimento. Sempre que você coloca sua mente em ação com o intuito de chegar à verdade, distinguir a verdade da falsidade, diz-se que está engajado no processo de raciocinar.

O interessante sobre o raciocínio é que se trata de um processo do tipo tomada-de-decisão. Raciocinar está interessado em “Devo aceitar X como verdadeiro?”, “Devo aceitar Y como verdadeiro?”, “Devo aceitar X como provável, possível ou pertinente?” e assim por diante. Em outras palavras, temos de tomar decisões em nossa vida intelectual assim como temos de tomá-las no dia-a-dia. Deste modo, o raciocínio enfoca – na perspectiva filosófica – aquilo com o que deveríamos nos preocupar ao estabelecer os critérios e padrões de raciocínio adequados. Você não tem escolha se tomará decisões intelectuais. Elas são necessárias pela própria natureza humana. É necessário aceitar algumas coisas como verdadeiras – você simplesmente não tem escolha, pois morreria se não o fizesse.

A única escolha que se tem é, primeiramente, se você irá ou não explicitar seus padrões de conhecimento, se estará ciente do que são, em contrate com simplesmente os aceitar, por meio de um tipo de osmose, de uma cultura e do que as pessoas falam. Em segundo, se seus padrões de conhecimento serão os padrões adequados. Digo adequados no sentido de o conduzirem ao que se deseja; no caso, a verdade. Neste momento, proponho que, de todo o bem e de todas as virtudes que o homem tem, o conhecimento é mais importante. O conhecimento é de valor fundamental para o homem porque fica na raiz de todos os seus outros valores. Precisamos saber os fatos; precisamos saber algo sobre o mundo antes de podermos determinar que alguma coisa tem valor no mundo. Deste modo, conhecimento é indispensável à nossa própria sobrevivência. E é apenas através de nossa razão, através do poder de nosso pensamento conceitual, que somos capazes de aplicar nosso conhecimento.

Porque chegamos a certos padrões de conhecimento, como as leis da lógica, as leis da evidência e assim por diante; porque essas nos permitem distinguir crenças verdadeiras e falsas; e porque seu objetivo, o conhecimento, é um bem fundamental ao homem, proponho que aquilo que denomino “hábito da racionalidade” designa a habilidade de ter arraigados em si esses padrões do conhecimento e empregá-los habitualmente, quase como se fossem uma segunda-natureza, como se fossem um traço de personalidade. Digo que este hábito da racionalidade é uma virtude primária em seres humanos. Considero a racionalidade a virtude intelectual primária possível ao homem. Isso conduz a uma conclusão interessante em relação ao ateísmo. Se, como sugeri, o conhecimento é de valor fundamental ao homem, se o hábito da racionalidade é uma virtude primária e se o ateísmo é uma conseqüência do raciocínio, então sucede que o ateísmo é, de fato, uma conseqüência de ser virtuoso. O ateísmo é uma conseqüência de uma virtude intelectual em particular. Estou dizendo isso para confrontar a prevalecente e ilógica noção de que ateus são imorais. Isso não apenas é falso, mas precisamente o contrário é verdadeiro. O ateísmo deveria proceder – mas freqüentemente não procede – da racionalidade que, por sua vez, significa uma virtude, uma virtude muito importante. Então você pode orgulhar-se de ser ateu se, de fato, isso resulta da racionalidade.

Uma pessoa racional, ao examinar alegações religiosas, estará preocupada apenas com valor verídico dessas alegações. Ouve-se freqüentemente que a religião faz as pessoas melhores, felizes etc., mas essas são todas questões marginais. Não tentarei argumentar contra o que denomino “humanismo intelectual”, isto é, acreditar em algo apenas porque faz com que nos sintamos bem. Proponho que, se estivermos preocupados com a racionalidade, então nossa principal preocupação em qualquer disciplina – certamente incluindo religião – deveria ser a veracidade das alegações. Quando o ateu é confrontado com a alegação de que existe um deus, sua primeira preocupação será a questão “Essa é uma alegação racionalmente justificável?”. Como um corolário dessa, estará preocupado com “O que é deus?”. Como definir esse termo? Trata-se de uma definição inteligível? Não. Em segundo, mesmo se conseguirmos extrair algum sentido do conceito de deus, há alguma evidência ou argumentos corroborativos da existência de um deus? Novamente, não. O ateu, procedendo a partir do hábito da racionalidade, enfim rejeitará as alegações da religião e as alegações do teísmo como falsas. E, portanto, rejeitará a crença em deus como sendo irracional.

Retornando ao meu argumento anterior, é freqüente ouvirmos que isso é irrelevante à maior parte dos religiosos. Indivíduos religiosos não acreditam por motivos intelectuais. Se conversarmos num nível intelectual com pessoas religiosas isso não lhes impressionará, pois não é pessoal o bastante para elas. Frente a isso posso apenas dizer que sim, infelizmente é verdade que muitos indivíduos religiosos não estão preocupados com a questão da veracidade e falsidade. Mas o fato aqui é que isso é problema deles, não meu ou de vocês. Se persistirem em seu irracionalismo, então podem – e freqüentemente conseguem – convencer-se de praticamente qualquer coisa. Permitam-me lembrá-los que os padrões do conhecimento são nossos únicos meios de discriminar seletivamente nossas crenças. Os padrões de significação, evidência, argumentação e assim por diante são a peneira pela qual discriminamos as crenças que são dignas de aceitação daquelas que não são. Se abandonarmos esses padrões, se os consideramos sem importância, então estaremos à mercê de quaisquer crenças que porventura cruzem nosso caminho. Não teremos padrões pelos quais possamos distinguir se essa é uma boa crença ou não. Muito provavelmente estaremos sujeitos a uma moda intelectual após a outra. Isso é muito comum hoje em dia. Vemos pessoas partindo de um culto ao misticismo oriental ao culto da psicologia, e assim sucessivamente, em cultos quasi-religiosos. Essa é a conseqüência lógica de a razão ter sido abandonada. Não existe mais um ponto de referência ou meios de discriminação entre crenças. Uma pessoa que é irracional por escolha está à mercê de seus sentimentos de um momento particular. Penso que não seria nenhuma surpresa se lhes demonstrasse que a maioria dos cristãos, se tivesse sido criada numa cultura muçulmana, seria muçulmana, não cristã. A maioria dos muçulmanos, se tivesse sido criada numa cultura cristã, seria cristã, não muçulmana. E porque o ateísmo, ao menos na cultura americana, representa uma posição não-ortodoxa, isso explica por que em grande parte ateus são pensadores independentes. Para tornar-se um ateu nesta cultura é necessário possuir pelo menos um pouco de independência para questionar a sabedoria prevalecente concernente à religião, pois somos inundados dela na escola, por nossos pais, por nossa cultura e certamente pela mídia massificada.

Neste momento há algumas questões paralelas das quais gostaria de tratar antes de adentrar na definição de ateísmo, pois as considero bastante importantes. Essas são questões mais práticas que filosóficas. Tenho certeza que se alguém aqui tentou argumentar pelo ateísmo, encontrou certos problemas práticos em comunicar suas crenças.

O primeiro fato que gostaria de explicar é um pouco deprimente para algumas pessoas. Visto que a racionalidade é um hábito a ser aprendido, nem todos são capazes de conduzir um bom argumento. Por isso, alguns sequer são capazes de argumentar de um modo inteligível. A argumentação também é uma habilidade que tem de ser aprendida e praticada. A implicação disso é que, na maior parte dos casos, provavelmente estaremos desperdiçando nosso tempo argumentando com muitos dos religiosos, isso pela simples razão de que muitos desses religiosos são incapazes de argumentar bem. É quase como se tivéssemos de educar alguns cristãos antes de podermos persuadi-los ao ateísmo. Primeiramente é necessário convencê-los de que deveriam preocupar-se com o que é verdadeiro e com o que não é. Devem ser capazes de distinguir entre argumentos racionais e irracionais – e assim por diante. E então, dois meses depois, talvez consigamos dizer a essa pessoa que, se levar isso adiante, acabará chegando ao ateísmo. Mas, a não ser que tenhamos muito interesse particular nessa pessoa, a não ser que seja pessoalmente significante, provavelmente não estaremos dispostos a desperdiçar um grande tempo em educá-la ou reeducá-la quanto aos princípios da razão. O que acontece? Alguns simplesmente desistem dessa pessoa. Com outras, isso é inevitável. A algumas podemos recomendar livros. É aqui onde os livros desempenham um papel crucial na educação, pois se uma pessoa se dá o trabalho de lê-lo, é capaz de vislumbrar uma grande quantidade de informação – que não é possível comunicar num curto período de tempo.

Isso me conduz à minha segunda área de conselhos práticos: tome os religiosos pelas suas palavras. Se disserem que não interessados na razão ou na verdade, então cesse a conversa com a observação de que é impossível comunicar-se com alguém que, por sua própria admissão, não está preocupado com a racionalidade. Em outras palavras, se você compreende a importância da racionalidade e sua significância, compreenderá que é preciso salvaguardar sua convicção na prática. É preciso deixar claro ao seu adversário que você não está disposto a desperdiçar seu tempo e energia com ele se não estiver disposto a aceitar os princípios fundamentais da razão. Seria como estar falando em duas línguas diferentes sem meios de tradução. Tudo que se obtém de situações como essa é uma dor de cabeça. Penso que é importantes tornar os religiosos totalmente cientes das conseqüências de seu irracionalismo. Será muito irritante aos religiosos se simplesmente nos recusarmos a falar com eles após um certo ponto, pois estes sem dúvida querem nos converter. Mas se deixarmos claro que não estamos dispostos a discutir o assunto a não ser que esteja disposto a aceitar os princípios básicos do raciocínio, então penso que irá impressioná-lo, num sentido muito prático, o quão importante consideramos a razão. Quando não fazemos isso, acabamos por sofrer com seu irracionalismo. Terminamos com uma dor de cabeça ou frustrados porque o indivíduo recusa-se a ser racional.

Feitos os comentários preliminares, prossigo ao centro do assunto que é, obviamente, ateísmo. Há muito que pode ser dito sobre isso. Escrevi um livro inteiro sobre o assunto e há outros tantos livros disponíveis. Não é minha vontade repetir um grande material que se pode obter simplesmente lendo livros sobre o assunto. Mas desejo esboçar brevemente o que o ateísmo é. E então pretendo prosseguir a algumas outras questões que não cobri totalmente em alguns de meus escritos.

Primeiramente, antes de podermos compreender o ateísmo, temos de entender o que teísmo significa, pois, obviamente, a-teísmo é derivado do termo teísmo. Bem, teísmo é simplesmente a crença em um deus ou deuses. Se à questão “Você acredita na existência de um deus ou deuses?” sua resposta for “sim”, então filosoficamente você é um teísta. Mas surge um problema adicional, o que é um deus? Muita tinta foi gasta nesta questão, mas, para nossos propósitos nesta tarde, por “deus” quero dizer qualquer tipo de ser sobrenatural ou transcendente. Qualquer tipo de ser que, de algum modo, transcende ou está isento das leis naturais do universo, seja um deus criador, o deus do deísmo, o deus do panteísmo etc.. Seja qual for, se esse ser tiver a habilidade de, por qualquer meio, burlar as leis da natureza, então pode ser corretamente classificado como sobrenatural – em outras palavras, acima da lei natural –, e se qualificaria como um deus. Isso implica, para todos os efeitos práticos, que se você acredita na existência de fantasmas ou elfos mágicos, e caso essas criaturas fossem dotadas de poderes sobrenaturais, então seriam deuses.

Se teísmo é a crença em alguma espécie de ser sobrenatural, o que é ateísmo? Novamente, há muita controvérsia a esse respeito. Fiz uma palestra inteira a respeito de qual deveria ser a definição de ateísmo; aqui simplesmente apresentarei a conclusão. O ateísmo, considerado adequadamente, é simplesmente a ausência ou falta de crença teística. Em outras palavras, se à questão “Você acredita em um deus” sua resposta for “não” – pelo qualquer motivo –, você é um ateu. Comumente diz-se que um ateu de fato nega a existência de deus ou deuses. Isso é verdade; muitos ateus o fazem, mas não todos. Esse tipo de negação manifesta da existência de deus ou deuses é uma subcategoria de um tipo de perspectiva mais ampla que, de modo geral, deveria ser denominada ateísmo. Seria bastante complexo examinar todas as razões pelas quais alguns ateus não desejam negar a existência de quaisquer deuses. Dou minha palavra que historicamente e filosoficamente é muito justificável afirmar que a melhor e mais ampla definição de ateísmo é simplesmente a ausência ou falta de crença em um deus.

Há um princípio anulador que é operativo aqui se se compreende essa definição de ateísmo. É o que se denomina dever da prova ou ônus da prova. O que esse princípio afirma é que o ônus da prova está na pessoa que afirma a veracidade de uma proposição. Se eu lhe digo “X é verdadeiro”, sou intelectualmente responsável por apresentar algum tipo de razão para que isso seja aceito. Se eu não apresentar quaisquer razões ou apresentar razões inválidas, você estará legitimamente justificado em rejeitar minha alegação de conhecimento como infundada e, deste modo, irracional. Provavelmente esse é o princípio mais importante em relação à defesa do ateísmo. O teísta apresenta uma proposição afirmativa; afirma que existe um deus ou deuses. O ônus da prova recai inteiramente sobre o teísta, para que prove ou demonstre a racionalidade dessa alegação. Não compete a mim ou a vocês, como ateus, demonstrar que um deus não existe. Nós só precisamos dizer ao religioso “Você fez uma afirmação; é sua responsabilidade demonstrar a veracidade dessa afirmação; se suas alegações se sustentarem, então você é racional; se não se sustentarem e você continuar acreditando, então você é irracional”. Essa é a idéia mais central, mais fundamental em relação ao ateísmo. O ateu não tem o ônus da prova; o religioso tem. O ateu não está afirmando a veracidade ou existência de qualquer coisa, mas desafiando a alegação de veracidade do teísta. A única responsabilidade nesse sentido é examinar criticamente o ponto de vista do religioso, sujeitá-lo ao escrutínio racional e, com base nisso, aceitá-lo ou rejeitá-lo. Essa é a nossa única responsabilidade. Após isso nosso trabalho estará concluído.

Devo mencionar brevemente um problema que às vezes se manifesta. Não é verdade que alguns ateus de fato negam a existência de um deus? Sim, é verdade. Não afirmaria, por exemplo, que não acredito no deus cristão, mas que tal ser não existe. Novamente, isso nos conduziria a algumas idéias filosóficas que não posso explorar agora, mas basicamente a razão para isso é que, se examinamos um conceito e este se mostrar inerentemente autocontraditório – do mesmo modo que um “círculo quadrado” é autocontraditório – então posso racionalmente afirmar que tal entidade não pode existir. E esse é, de fato, o caso do deus cristão. Este é internamente confuso e autocontraditório. Penso que seria curioso se encontrássemos um cristão que nos diz “Bem, você não pode provar que deus não existe!”; poderíamos fazer uma pergunta interessante ao cristão: “Você acredita no deus do zoroastrianismo? Você acredita em Alá? Você acredita em Zeus?”. Há literalmente centenas de deuses nos quais o cristão não acredita – o qual diria que esses deuses não existem. Bem, como o cristão sabe disso? Se estiver tão inflamado a ponto de dizer que não podemos saber que um deus não existe, então como pode dizer que Zeus não existe? Bem, obviamente, o cristão pode dizer em resposta “Bem, isso é ridículo! Todos sabem que Zeus não existe. É uma idéia mitológica”. Este continuará a discorrer, fornecendo alguns bons argumentos que, se aplicados às suas próprias crenças, as demoliriam por completo. Monoteístas – as pessoas que só acreditam em um deus – estão muito próximas de serem ateístas. Estão a apenas um passo do ateísmo. Estão apenas a um fio de distância do ateísmo. Tudo que precisa fazer é se livrar desse último deus e terá cruzado a linha. Este é um modo bastante diferente de ver o monoteísmo, mas penso ser justificado. Tudo que precisamos fazer é pedir ao cristão que aplique seus próprios padrões – pelos quais rejeita as centenas de deuses que foram oferecidos ao longo da história da humanidade – e aplicá-los às suas próprias crenças, e isso demolirá as suas crenças igualmente.

Gostaria de mencionar brevemente um termo que é muito importante na história do ateísmo. Esse termo é “livre-pensamento”. Também não discorrerei longamente sobre isso, mas vale ser mencionado porque “livre-pensamento” é um termo que foi amplamente utilizado historicamente. Qual é a significância de “livre” em “livre-pensamento”? Em um sentido, que todas as suas crenças são livres. Mas ninguém pode forçá-lo a acreditar em algo contra sua vontade. Bem, a significância de “livre” em “livre-pensamento” é ser moralmente livre. Os livres-pensadores, historicamente, estavam reagindo à doutrina de que se é moralmente obrigado a aceitar um certo conjunto de crenças – um dogma – como verdadeiro, e que você seria em algum sentido imoral se, por exemplo, não aceitasse as doutrinas do cristianismo. Os livres-pensadores disseram “Não! Devemos ser moralmente livres para investigar as crenças com o máximo de nossas habilidades, sem sermos moralmente obrigados a aceitar qualquer conjunto de crenças em particular”. Essa é a significância primária do livre-pensamento. Isso remete à idéia que exprimi anteriormente sobre a importância do hábito da racionalidade. Aquele que se preocupa em ser racional será, necessariamente, um livre-pensador.

Entrarei agora um pouco no terreno obscuro do conceito de deus, apenas para demonstrar uma idéia sobre provas para a existência de um deus. Em meu livro e nos escritos por outros autores como Antony Flew, Chapman Cohen, Wallace Matson e outros, encontraremos refutações bastante detalhadas de argumentos para a existência de um deus. O argumento da causa primeira, os vários argumentos cosmológicos, o argumento do design e assim por diante. Obviamente não posso cobri-los aqui. Mas desejo fazer referência ao problema básico envolvido em tais “provas”. O problema básico é este: o conceito de deus – o conceito do deus cristão em particular –, removido de toda a verbosidade que o envolve, sempre resulta em algum tipo de ser incognoscível. Percebam que não disse “desconhecido”, disse “incognoscível. Essa é a crença básica e central do teísmo – a crença em algum tipo de criatura incognoscível. Por “incognoscível” quero dizer uma criatura que, por sua própria natureza, nunca poderá ser conhecida pelo homem. Não quer dizer algo do qual atualmente não temos conhecimento. Há muitas coisas das quais não temos conhecimento. Estamos falando sobre algo que, em princípio, não pode ser conhecido. Parece haver um problema óbvio em se tentar provar – ou mesmo falar sobre – um ser que, pela própria admissão dos teístas, é incognoscível. Como podemos falar, conceituar ou demonstrar a existência desse tipo de coisa? É, em princípio, impossível. Essa é, basicamente, a razão pela qual tudo aquilo que se alega como prova, em última instância, falha. Há uma passagem do famoso materialista e ateu do século XVIII, Barão D’Holbach, que é muito interessante nesse sentido. Após perceber que a teologia tem “como seu objeto apenas coisas incompreensíveis”, D’Holbach argumenta “que é um contínuo insulto à razão humana”. E continua desta maneira:
Nenhum sistema religioso pode ser fundado senão sobre a natureza de deus e do homem e sobre as relações que mantêm entre si. Mas, a fim de julgar a realidade dessas relações, devemos ter algum tipo de noção da natureza divina. Mas todos dizem que a essência de deus é incompreensível ao homem. Ao mesmo tempo, não hesitam em conferir atributos e esse deus incompreensível e em nos assegurar que homem não pode dispensar a sabedoria desse deus – o qual é impossível conceber. A coisa mais importante para o homem é aquela mais distante de sua compreensão. Se deus é incompreensível ao homem, seria racional nunca pensar neste absolutamente. Mas a religião conclui que o homem é um criminoso se, por um momento, cessar de venerá-lo.

D’Holbach conclui – muito bem, devo acrescentar – que “religião é a arte de ocupar mentes limitadas com aquilo que é impossível de conceber ou compreender”. Simplesmente não é possível discutir de modo inteligível, muito menos provar, a existência de uma criatura incognoscível. É um absurdo filosófico. O conceito em si não faz sentido.

Das muitas “provas” que foram oferecidas, provavelmente a mais popular aos leigos é aquilo que se conhece como argumento da experiência religiosa. Ainda não falei ou escrevi sobre o assunto anteriormente, então gostaria de enfocá-lo por alguns minutos porque esse é o tipo de argumento que mais freqüentemente encontramos. Este confunde algumas pessoas com suas justificativas porque é um argumento confuso. Por argumento da experiência religiosa refiro-me a alguma variação do tema como “Sei que deus existe porque tive algum tipo de experiência pessoal” ou, colocando nos termos dos fundamentalistas, “Jesus entrou em meu coração”, e assim por diante; ou, colocando nos termos do misticismo oriental, “Tive algum tipo de experiência com o Todo do universo”. Sejam os termos quais forem, a idéia básica é esta: tentar provar alguma idéia filosófica fazendo referência a uma experiência pessoal de algum tipo. Esse é o argumento mais comumente utilizado pelos religiosos e místicos.

O primeiro problema com esse argumento é que não se trata realmente de um argumento. Um argumento presumivelmente tem algumas premissas, prossegue por uma linha de raciocínio e tem uma conclusão. Esse “argumento” é simplesmente uma afirmação pura. Não é um argumento absolutamente. Poderia igualmente dizer que há fadas invisíveis nesta sala porque tive uma experiência pessoal com elas; ou que há um elfo verde invisível em meu ombro porque tive uma experiência pessoal com ele. Em outras palavras, uma vez que se recorre a esse disparate, é possível “provar” ou argumentar qualquer coisa. Esse é o completo abandono de qualquer espécie de critério racional – tentar demonstrar uma idéia filosófica sobre a existência de algo simplesmente fazendo menção a algum tipo de experiência interna, a um sentimento.

Houve várias tentativas de defender esse tipo de argumento. Uma delas que se ouve comumente é que este sentimento é único. Os religiosos ou místicos não podem comunicar sua experiência a você porque é tão única que não pode ser comunicada. A isso respondo de todas experiências são únicas. Todas experiências que temos são únicas. Não há nenhuma experiência que seja exatamente igual a qualquer outra que tenhamos vivido. A questão é que temos uma mente, temos habilidade conceitual, e isso é tudo que importa nessa questão. Conceitos nos permitem distinguir as diferenças entre nossas experiências e focar os elementos mais comuns e nos comunicarmos. É disso que a formação de conceitos consiste; é assim que raciocinamos. O religioso alega que não pode comunicar sua experiência porque é única – se considerarmos as implicações disso consistentemente, significaria que não podemos nos comunicar em absoluto porque todas as nossas experiências são únicas. Penso que seria mais preciso afirmar que a experiência do religioso é simplesmente ininteligível. Ele não compreende o que é ou por que ocorreu, então inventa uma explicação adequada aos seus propósitos.

Há outro tipo de resposta utilizada às vezes. Este é o paralelo que freqüentemente ouvimos do místico, a pessoa que afirma ter vivenciado algum tipo de contato pessoal com a divindade. O místico está para o homem comum assim como o homem que enxerga está para o cego. Tenho certeza que muitos de vocês já ouviram isso vez ou outra. Não apenas leigos utilizam esse argumento, mas sofisticados filósofos e teólogos – que deveriam ser mais esclarecidos – recorrem a ele. Às vezes nos apresentam a ilustração de que se um homem com visão estivesse entre uma raça de pessoas cegas e tentasse explicar como o mundo é, estes diriam que a pessoa é irracional e negariam a existência de tais coisas. Obviamente, o místico quer colocar-se na mesma categoria. “Tenho uma faculdade intuitiva especial” ou “Tenho uma linha direta especial em deus” e isso lhes permite alcançar um conhecimento especial que meros mortais não são capazes de obter.

Há muitos, muitos problema com esse “argumento”, por assim dizer; evidenciarei apenas alguns. Primeiramente, há uma diferença entre pessoas com visão e pessoas cegas, mas essa diferença pode ser atribuída a algum tipo de diferença de capacidade física. Podemos explicar por que – fisicamente – uma pessoa com visão é capaz de sentir percepções enquanto a pessoa cega não pode. Não há nada misterioso nisso, todavia com o místico esse não é exatamente o caso. O místico está alegando algum tipo de capacidade intuitiva ou física especial – um novo sentido? Se está, deixemos que ele nos proporcione algum tipo de informação sobre isso para podermos testá-la. Em segundo, a pessoa com visão não alega ter acesso a um mundo inacessível, sobrenatural. A pessoa com visão está lidando com o mesmo mundo que a pessoa cega. Este simplesmente tem uma habilidade adicional que o cego não possui. Não tenho de contradizer o conhecimento de uma pessoa cega para explicar aquilo que vejo. Ela pode testar independentemente, de seu próprio modo, as alegações que faço. Se digo à pessoa cega “Há uma parede logo à sua frente”, ela não precisa acreditar em mim – pode chegar perto e tocá-la, senti-la, percebê-la, usando as modalidades sensoriais de que dispõe. Esta é outra noção crucial que devemos ter em mente a respeito desse argumento. O indivíduo cego e o com visão não estão lidando com mundos distintos; o cego tem meios de conferir, de verificar as alegações da pessoa com visão. Infelizmente, de novo, não temos essa oportunidade no que concerne a alegação do místico. Que tipos de procedimentos verificáveis ou testes poderíamos estruturar para sustentar a alegação do místico de que está em contato com algum mundo inefável, sobrenatural. Não há meio algum, pois não apenas alega ter um sentido, poder ou habilidade especial, mas alega sentir ou saber algo que está inteiramente no outro mundo. Isso é completamente arbitrário, indefensável e insustentável. Há várias outras coisas que poderíamos evidenciar igualmente, como o fato de que o homem cego não usa padrões de conhecimento diferentes do homem com visão. Eles simplesmente têm meios diferentes de recolher evidência, enquanto o místico exigiria que abandonássemos muitos dos padrões de conhecimento que utilizamos presentemente. Tenho certeza que vocês podem imaginar muitas outras objeções que poderiam ser feitas a essa idéia em particular.

Às vezes ouvimos que o místico submeteu-se a um intenso treinamento especial. Fez meditação – ou o que for necessário – e, através desse treinamento especial adquiriu esta capacidade especial de perceber um ser sobrenatural de algum modo. Isso realmente não significa nada senão que podemos passar anos em algo e ainda chegar a conclusões ridículas, assim como podemos chegar a essa conclusão ridícula em trinta segundos ou um minuto. De fato, penso que compreendem que se devotarmos anos ao estudo de uma disciplina, após um tempo surge um certo interesse mascarado na veracidade dessa disciplina. Se digo que vou para o Himalaia tentar entrar em contato com o todo do universo, chego lá e me dizem que preciso meditar por cinco anos e me submeter a certas práticas para essa finalidade, penso que, emocionalmente, seria muito difícil após os cinco anos retornar e dizer “Bem, foi uma perda de tempo”. Há interesses emocionais ocultos envolvidos na esperança de que aquilo em que você devotou todo esse tempo tenha algum mérito. Há esse problema não apenas com místicos, mas também com professores de teologia. Pode-se imaginar fazer o seminário, passar anos em treinamento teológico, ter seu sustento dependente disso, apenas para um dia dizer “Bem, acho que tudo isso é apenas perda de tempo; não faz sentido”. É muito difícil fazer esse tipo de coisa e é necessário ter uma mente extraordinariamente independente para ser capaz de ir contra a semente de tanto investimento.

Esta é a última observação que desejo fazer a respeito do argumento da experiência religiosa. Isso é mais prático, é algo que podemos utilizar. Um dos maiores problemas com a alegação de experiência religiosa é que não há a possibilidade de falsificá-la. Em outras palavras, para acreditarmos no místico, este quer que nos submetamos a um certo experimento. Quer que nos sujeitemos a algum tipo de procedimento, e então veremos que suas crenças estão corretas. O modo mais freqüente pelo qual encontraremos isso é quando um fundamentalista diz “Veja, se você se ajoelhar e rezar para que Jesus Cristo venha ao seu coração, então verá que o que digo é verdadeiro. Não posso comunicar isso a você a não ser que siga esses procedimentos”. Certamente todos já nos deparamos com isso de tempos em tempos. Suponhamos que este fundamentalista tenha um quê filosófico e queira defender tal argumento. Este poderia dizer: você alega ser racional; alega ter uma mente aberta; tudo que estou pedindo é que faça uma experiência; tudo que tem de fazer é ajoelhar-se, olhar para o céu, juntar as mãos e pedir a Jesus que venha ao seu coração; se você de fato tem a mente aberta, certamente estará disposto a fazer este pequeno esforço para verificar minha alegação; não é isso que significa ter a mente a aberta?

Desejo apontar uma coisa interessante em que nunca pensamos quando o fundamentalista argumenta dessa forma. O fundamentalista deseja fazer um “experimento”; todavia, não está disposto a aceitar o risco inerente a qualquer experimento. Em outras palavras, se há a possibilidade do experimento ser bem-sucedido, então também deve haver a possibilidade de fracassar. Se há a possibilidade de sucesso, também há a possibilidade de fracasso. Deve haver um risco envolvido no experimento. O fundamentalista tem uma hipótese: “Jesus é seu salvador ou deveria ser” ou “Deus existe” ou qualquer outra coisa. Eis o que dizemos ao fundamentalista: você tem uma hipótese; você estruturou um experimento; estou apostando a veracidade de minhas alegações nesse experimento, mas temos de fazer apostas similares; você tem que apostar a veracidade de suas alegações no experimento; se eu me ajoelhar e fizer o que diz ser necessário, e acontecer o que você disse, então estarei convencido; se, entretanto, eu me ajoelhar e nada acontecer, então isso falsificará sua hipótese e você deve abandonar sua crença em deus.

É muito, muito importante compreender o que estou dizendo. Se esse “experimento” se pretende legítimo, deve oferecer risco a ambos os lados. Mas a questão é percebermos que o religioso não está disposto a isso. Ele está disposto a aceitar o risco correspondente de abandonar sua crença se não formos salvos após nos ajoelharmos? Ele se propõe a fazê-lo? Diria que, em 99,9% dos casos, não. O que ele poderia dizer? “Talvez você não tenha sido sincero” – afirmando que a culpa foi sua. Mas nunca culpará a si próprio. Nunca acusará as suas próprias idéias. A próxima vez em que estiver nesta situação, em vez de desconsiderá-la como um absurdo – que, de fato, é – você poderia perguntar isto ao cristão: “Se você realmente deseja trazer o espírito científico a isso, então farei o teste; estou disposto a fazê-lo; mas, se falhar, você terá de abandonar suas crenças e tornar-se um ateu”. Isso parece justo, mas obviamente ele não aceitará. Como um lembrete final, sugiro que, caso ele aceite a proposta, coloque isso por escrito ou o faça na frente de testemunhas, pois cristãos não são muito famosos por sua integridade intelectual em questões como essa. Devo lembrá-los da passagem de Paulo “Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns” (Coríntios I, 9:22), que é o que denomino hipocrisia intelectual em nome da disseminação do cristianismo.

Ouvimos muitas objeções ao ateísmo. Há tantas que não posso tratar de todas. Mas uma delas que desejo comentar é a alegação de que “Se o ateísmo está correto, estamos diante de um universo frio e indiferente, no qual não há sentido; somos grãos insignificantes em um planeta que orbita numa vasta galáxia”. Bem, isso é bastante verdadeiro – o universo não se importa com vocês; o universo não se importa comigo. A questão é que devemos nos importar com nós mesmos, pois se não o fizermos ninguém fará por nós – certamente o universo não. E nesse sentido penso que somos insignificantes no que concerne o universo. Se você morresse amanhã, o universo não iria parar a fim de organizar-lhe um funeral. O universo continuará em seu alegre caminho. Todavia, não está realmente correto afirmar que somos insignificantes, pois a idéia de significância e insignificância não faz sentido quando consideramos o cosmos inanimado. Significância é um termo que somente se aplica a algum tipo de avaliação consciente. Mas, num certo sentido, não somos tão significantes se considerarmos a totalidade do universo. Quanto ao problema “Qual é o sentido da vida do homem?” – não há sentido da vida do homem. Com alguma sorte deve haver algum sentido em sua própria vida, mas cabe a você criá-lo. Novamente, se não o fizer, ninguém fará por você.

Penso ser esse o motivo pelo qual a religião é tão devastadora, não apenas filosoficamente, mas também na perspectiva psicológica. Às vezes afirmam “O que faríamos sem religião? O que faríamos sem o cristianismo?”. Mas não entendendo o que fazemos com a religião ou o que fazemos com o cristianismo. E se eu acreditasse em Jesus? Isso não tornaria minha vida bem-sucedida. Vou falhar ou vou prosperar; vou tentar ou não – e simplesmente acreditar em algum tipo de divindade mitológica não mudará isso. Ainda depende de mim; ainda é uma questão pessoal. Não entendo qual é o grande benefício psicológico e moral que a religião supostamente ofereceu ao longo das eras. Sem dúvida, ela confere a algumas pessoas uma sensação de conforto. Se o mais importante para sua vida é o conforto, mesmo que ao custo da verdade, então você talvez acreditará em deus. Mas como indiquei no início, julgo que o mais importante deveria ser a verdade. A verdade pode ser dolorosa em algumas ocasiões específicas, mas penso que sempre funcionará em favor de seus interesses em longo prazo. Esse é um efeito benevolente, bom do ateísmo. O ateísmo limpar o ar – o restaura; limpa os entulhos psicológicos, morais e filosóficos; permite que as pessoas vivam por si próprias para buscar seus objetivos racionais, valores racionais e assim por diante.

Como argumento final – ou sátira de argumento –, penso que já devem ter ouvido sobre a aposta de Pascal algum dia. Blaise Pascal foi um famoso matemático, filósofo e teólogo francês. Ele bolou este argumento que, conseqüentemente, tornou-se bastante famoso, e consiste basicamente nisto: a razão não pode provar ou negar a existência de deus; considere as vantagens; se o ateísmo está correto, vamos morrer, nada acontecerá e nada perderemos; todavia, se o cristão está correto, os descrentes acreditarão no inferno eternamente. Assim, parece que as vantagens práticas estão no cristianismo. Nós apostaríamos no cristianismo porque as vantagens práticas são importantes. Se apostarmos no cristianismo e não houver um deus, não perderemos nada.

O primeiro problema óbvio com isso é que coloca de lado toda a questão da integridade intelectual, como se pudéssemos simplesmente mudar nossas crenças arbitrariamente sem sofrer qualquer dano psicológico, o que é simplesmente impossível. Seria necessário tamanho desprezo pela integridade intelectual para realizar esse tipo de coisa, que é inconcebível que alguém com o tipo de mente de Pascal sequer a proporia.

Mas eu gostaria de propor uma contra-aposta, chamada “aposta de Smith”. Eis as premissas de minha aposta:

1 – A existência de um deus só pode ser estabelecida por meio da razão.

2 – Aplicando os cânones do raciocínio correto à crença teística, chegamos à conclusão de que o teísmo é infundado e deve ser rejeitado por pessoas racionais.

Então vem a questão “Mas e se minha razão estiver errada neste caso?” – pois às vezes está. Somos seres humanos sujeitos a falhas. E se for o caso que existe um deus cristão que está lá em cima e que punirá por toda a eternidade a descrença nele? É aqui onde entra minha aposta. Suponhamos que você é um ateu. Quais são as possibilidades? A primeira possibilidade é que não existe um deus, e você está certo. Neste caso, você morrerá e tão-somente, não terá perdido nada, e viveu uma vida feliz na posição correta. Em segundo, pode existir um deus que não está preocupado com as ações humanas. Pode ser o deus tradicional do deísmo. Ele pode ter dado início ao universo e o deixado seguir segundo suas próprias leis, e neste caso você simplesmente morrerá e, de novo, isso será tudo, você não perderá nada.

Suponhamos que exista um deus que está preocupado com as questões humanas – um deus pessoal –, mas que é justo, se preocupa com a justiça. Se há um deus justo, este não nos puniria por acreditarmos honestamente num erro quando este não implica torpeza moral ou maldade. Se esse deus é o criador e nos concedeu a razão como um meio básico de compreender nosso mundo, então este se orgulharia do consciente e escrupuloso uso da razão por parte de suas criaturas, mesmo se cometessem erros de tempos em tempos – do mesmo modo que um pai benevolente se orgulharia das conquistas de seu filho, mesmo se este cometesse erros de tempos em tempos. Portanto, se existe um deus justo, não temos absolutamente nada a temer – não faz sentido pensar que tal deus nos puniria por uma crença equivocada.

Agora chegamos à última possibilidade. Suponhamos que exista um deus injusto, especificamente o deus do cristianismo, que não tem qualquer consideração pela justiça e que nos fritará no inferno, independentemente de termos cometido erros honestos ou não. Tal deus é necessariamente injusto, pois não podemos conceber uma injustiça mais odiosa que punir uma pessoa por honestamente acreditar num erro, quando esta tentou ao máximo distinguir a verdade. O cristão pensa que está numa posição melhor se esse tipo de deus existir. Mas devo salientar que ele não está em uma posição nem um pouco melhor que nós se existe um deus injusto. A marca da injustiça é o comportamento desregrado, um comportamento imprevisível. Se há um deus injusto que realmente se alegra incinerando pecadores e descrentes, então o que lhe daria mais alegria que dizer aos cristãos que serão salvos, apenas para depois tostá-los igualmente pela diversão – apenas porque lhe apraz? Se há um deus injusto, que pior injustiça poderia haver? Não é uma idéia tão forçada. Se deus está disposto a punir o ateu por uma simples crença errônea, não se pode acreditar que ele cumprirá sua palavra quando diz que não lhe punirá se não acreditar nele porque, de início, este tem uma veia sádica – certamente conseguiria extrair bastante alegria desse comportamento. Se existe um deus injusto, então estamos vivendo num universo que é um pesadelo, mas não estamos numa posição pior que a do cristão.

Novamente, se formos fazer uma aposta, poderíamos apostar no que a razão nos diz – que o ateísmo é correto, e seguir esse caminho, pois não se pode fazer nada a respeito de um deus injusto, mesmo se aceitarmos o cristianismo. Minha aposta diz que devemos em todos os casos apostar na razão e aceitar a conseqüência lógica que, no caso, é o ateísmo. Se não há um deus, estamos corretos; se há um deus indiferente, não sofreremos; se há um deus justo, não temos nada a temer pelo uso honesto da racionalidade; mas, se há um deus injusto, temos muito a temer – assim como o cristão.

Assim retornamos à idéia inicial, de que o ateísmo deve sempre ser considerado dentro de um contexto mais amplo de respeito pela razão e respeito pela verdade. Penso que, como ateus, quando tentamos comunicar a mensagem ateísta, essa é a principal idéia que devemos enfatizar.



Nota do tradutor: Esta palestra foi transcrita de uma fita com o nome “Atheism: The Case Against God”. Como George H. Smith publicou um livro com esse mesmo título, a palestra teve seu nome alterado para “How to Defend Atheism”. Todavia, como esta obra não foi publicada em português, optei por retomar o título original.

Autor: George H. Smith
Tradução: André Díspore Cancian

Ateus.net

3 comentários:

Bruno C. disse...

Seu blog é muito bom.
Nem todos ateístas entendem o ateísmo, apesar de sua simplicidade, a meu ver.
Imaginem porque os religiosos não entendem?!

Adilson José Ribeiro disse...

Querido amigo Adriano, é um prazer visitar seu blog, vejo que tem estudado bastante e a cada dia ampliando seus horizontes de conhecimentos...
Concordo plenamente com o comentário do Bruno C. é tão simples, mas para muitos ainda é totalmente inimaginavél.
Mas sabemos que evoluções acontecem a longo prazo... certamente a cada dia mais pessoas irão entender...
Um grande abraço.
Té breve.

Roberto_rrk disse...

Maravilhoso texto, fica tão fácil até para um teísta entender, desde que o queira. Realmente muito bom.